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hoje não é o melhor dia da minha vida


Eu sabia que tinha algo de errado no momento em que meu shorts escorregou do meu corpo quando eu sai do banho naquela noite, todas as vezes que minha irmã brincará comigo falando que eu estava emagrecendo ou a preocupação da minha mãe na ultima vez que nos vimos pelo osso do meu peitoral estar começando a aparecer mais e quando meu pai pediu pra eu forçar mais em todas as refeições que eu deixava mais da metade do prato de lado começaram a fazer sentido na minha mente. Entrei no quarto fechando a porta logo em seguida me certificando que aquele shorts era realmente o qual comprei recentemente - sempre tive mania de comprar roupas de dormir em números justos ao meu corpo por saber que iria demorar para atualizar tais vestimentos - a etiqueta de preço estava pendurada na peça indicando que era a certa. Os problemas começaram a esquentar quando em um exame de sangue feito recentemente - e obrigado pelo meu pai - gritou em letras vermelhas uma forte anemia, e o olhar preocupado do médico quando leu que meus níveis de açúcar e glóbulos vermelhos estavam muito baixos pra alguém da minha idade. A lista de remédios e vitaminas vieram em peso quando passei na farmácia e fiquei cerca de 40 minutos esperando até o farmacêutico providenciar e achar todos os remédios necessários que estavam prescritos pra mim "vai precisar de uma boa alimentação, são muitos remédios e se tomar de estômago vazio vão prejudicar sua saúde no lugar de ajudar." ele disse olhando de forma preocupada pro meu pai e pra mim logo em seguida. Era o mesmo olhar que o médico me olhará horas atrás.
 Era de se esperar que minha alimentação não fosse normalizar e que os remédios começariam a diminuir minha imunidade. Olhando em um ponto fixo qualquer enquanto esperava a bolsa de soro esvaziar que percebi o quão cansado eu estava sem nem fazer algum esforço, lufadas de ar falhadas saiam do meu peito e tosses vazias proporcionadas por mim era o único barulho naquela sala de observação do Hospital Central da cidade. Uma enfermeira com cerca de 30 anos veio medir minha pressão e conferir se o soro tinha acabado alguns minutos depois, eu apesar observava sem força alguma de pronunciar alguma palavra ou iniciar algum dialogo monótono; "o que você está sentindo? Ei, garoto?" percebi que se tratava de mim quando ela começou a estralar os dedos na minha frente tentando chamar minha atenção "o que? nada, só fraqueza" respondi mais baixo do que eu imaginava que minha voz pudesse sair, "escuta, sua pressão ta muito baixa, eu vou pegar algo pra você comer, se tiver alguém la fora te esperando ligue pra vir aqui te buscar enquanto isso, duvido que você consiga andar sozinho" e então ela saiu pelos grandes corredores daquele lugar gelado e silencioso, me perguntei se ela era tão fria e curta assim ou se estava apenas cansada do trabalho. Minutos depois eu vi meu pai apoiado no batente da porta me olhando com um sorriso de canto, a enfermeira tirou o soro do meu braço e me deu um pouco de sopa que ao contrário do que deveria, estava muito salgada por ter vindo de um Hospital. Meu pai forçou os braços na minha cintura quando cruzamos a porta principal e saímos em direção ao carro que eu rezava não estar muito longe - eu sentia que minhas pernas poderiam falhar em qualquer segundo - quando passei o cinto ao redor do meu corpo e encostei minha cabeça no vidro fechando os olhos logo em seguida sentindo o sono predominar meu corpo, naquele dia a unica coisa que eu queria era dormir, e assim eu fiz, por todo o dia.
 Foi dia 15 de Abril que eu senti as coisas piorarem, fazia quase 24 horas que eu não conseguia comer, me perguntava e achava impossível imaginar que um dia eu puderá sentir fome ou conseguir engolir algo e deixar no estômago mais de 1 hora. Naquele dia eu encontrei a mesma enfermeira no hospital 3 vezes, as 9 da manhã, as 17 da tarde e as 22 da noite, quando me viu cruzar a porta com a ficha na qual o médico pedia alguns litros de soro e verificar minha pressão a cada 30 minutos, ela respirou fundo e pegou as coisas para furar meu braço como fez nas duas vezes mais cedo, "olha, você tem que melhorar, já é a terceira vez só hoje, eu sei que você não escolheu estar assim, mas só você pode mudar" eu não respondi, fiquei olhando pra ela sem expressão alguma esperando a dor involuntária da agulha atravessando minha pele. O mesmo procedimento aconteceu, comi sopa salgada, meu pai me ajudou a ir até o carro, eu dormi o percurso inteiro, a unica coisa diferente foi ao cruzar o corredor de casa a caminho do meu quarto, a voz estridente da minha irmã ecoou na casa inteira "você não ta cansado? não se cansou ainda de ver a gente preocupado com você? por que você não melhora logo?" eu entendia ela, entendia que todo mundo tava se desdobrando pra me ajudar e eu não culpava ela por ter estourado, alguém precisava e meu pai jamais iria gritar comigo por mais que devesse. Dia 23 de Abril eu raspei minha cabeça, e furei minha boca de novo, porém dessa vez dos dois lados, eu esperava que mudar daquele jeito por fora, iria consequentemente mudar por dentro, que toda aquele inferno que eu estava sentindo iria sumir. Nunca me enganei tanto. Depois de ouvir um sermão do meu pai por fazer algo sem pedir antes e depois de ouvir minha irmã tentando me questionar o porquê de ter raspado a cabeça, eu me tranquei no quarto, depois de ter negado todas as tentativas do meu pai me fazer comer, eu finalmente me tranquei no meu quarto, pela primeira vez desde que tudo começou eu me permiti olhar no espelho com franqueza. Tirei a camisa e percebi a mudança que todos estavam falando, percebi que meus ossos do peitoral estavam ali expostos, que meu rosto tinha o maxilar marcado e que as noites mal dormidas estavam começando a terem marcas bem embaixo dos meus olhos.
 Fazia mais de um mês que eu não via minha mãe, apesar de acompanhar de longe meu estado, não se importou de se locomover ao ponto de vir me ver, ou me acompanhar nas consultas. Foi no dia 13 de Maio, dia das mães que ela apareceu - o que eu descobri depois que foi depois de uma grave discussão com meu pai na qual ele questionava o papel dela como mãe - acordei com ela me chamando para irmos almoçar e que queria me ver, ela deu espaço para eu fazer minha higiene matinal e me arrumar, mas ela não se preparou para me ver ou realmente acreditou que era apenas um momento de crise e preocupação excessiva da parte do meu pai. A ficha dela demorou a cair e quando tal coisa aconteceu, ela chorou, chorou dramaticamente e demoradamente soltando pedidos de desculpa nos intervalos, eu não tive reação, tão pouco me preocupei em falar alguma coisa que fosse conforta-lá. Ela me pediu para ver todos os exames feitos e remédios que eu estava tomando, como ela também passou a mão no meu peitoral por cima dos ossos que até então não estavam ali da ultima vez que nos vimos, quando informei quantos quilos eu perdi naquele meio tempo ela percebeu que não se tratava apenas de um momento de crise e/ou preocupação excessiva do meu pai, que a coisa era bem mais séria e grave e foi depois de uma conversa cansativa e monótona com ela, com diversas tentativas de me levar para igreja ou algo do tipo que ela simplesmente foi embora, enquanto eu tomava banho, ela simplesmente foi embora, sem se despedir.
 As consultas e exames que davam alerta sobre anemia e/ou falta de vitaminas, e proteínas no meu corpo foram ficando cada vez mais frequentes. As idas ao Hospital para tomar soro eram diárias e a enfermeira que dias depois descobri se chamar Raquel, era algo que tava na minha rotina. O médico se sentiu satisfeito apesar de toda a situação por ter achado um remédio que por mais que não houvesse alimento no meu estômago, ele continuasse lá e fizesse o trabalho dele. As dores estomacais não demoraram pra aparecer e a rotina diária que eu tinha em casa foi excluída e anulada no momento que meu pai me viu desmaiado na cozinha e no banheiro "eu sei que sou saudável, mas eu quase tenho um ataque cardíaco todas as vezes que eu te encontro desmaiado e com esse nariz sangrando desse jeito" ele exclamou chateado depois de me colocar sentado no sofá tentando parar o sangue que insista em escorrer do meu nariz. Ele cortou todas as tarefas domésticas que eu fazia, me manter em pé sem um apoio por mais de alguns minutos estavam começando a ficar mais difícil. Eu comecei a comer no quarto, e passar mais tempo do que eu deveria lá. Eu me excluí de tudo e todos. As noites em que eu conseguia dormir eram poucas. Eu decidi misturar todos os remédios para ter nem que fosse uma noite de sono inteira, e eu percebi que tomar calmantes com outros medicamentos junto, de uma vez, pode não ser uma boa ideia, o processo de desintoxicação depois é horrível e eu passei a aceitar as noites sem sono. Passei a questionar sobre a existência. A minha existência. Tem coisas que não fazem sentido, e você não consegue encontrar o porquê de simplesmente haver. Eu passei a escrever em um caderno preto que eu achei guardado, todas as noites, todos os dias. Meus questionamentos sobre a existência ainda são diários, as noites em claro ainda são frequentes e a idá ao Hospital por mais que não sejam todos os dias, ainda existem e eu não sei o momento que vão parar, ou quando vou parar de ter tantos problemas, e receber os exames com letras grandes e vermelhas. Não sei quando vou voltar a ver quem me afastei. Mas, se posso dar alguma certeza no meio disso é que dói. Todos os dias. Se posso te dar alguma certeza é que meu peito queima e dói todos os dias quando acordo ou quando vejo o sol nascer nas noites em que eu não durmo. E eu nunca fui propicio a sentir dor.


Eu queria dizer mais vezes pra mim todas as manhãs quando acordo ou todas as madrugadas quando demoro pra dormir "a vida é boa de se viver" eu queria dizer isso mais vezes e realmente dizer e acreditar. Minha psicóloga falou que ajuda a pensar positivo todos os dias ao acordar e dizer "hoje vai ser o melhor dia da minha vida" e eu tentei, por cerca de 10 dias a dizer isso todos os dias quando eu acordava ou quando o sol nascia nas vezes que eu rodava dias sem dormir. "Hoje vai ser o melhor dia da minha vida" eu sussurrava no meio do eco árduo, e se talvez eu disser que foram os piores? A pior coisa que pode acontecer ao ser humano é ele ficar com o peito carregado de expectativa e esperança e isso ser tirado dele. Arrancado. Ver a vida e as coisas ocorrendo esfregando na minha cara, as lágrimas e os soluços dizendo e rasgando meu peito me mostrando que; hoje não é o melhor dia da minha vida.

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