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writing about she. writing about us.


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Capitulo 1: O Começo.

 Lembro do relógio da cozinha badalando em todos os sentidos naquela madrugada sem fim, onde eu lutava contra a insônia e a falta de sentido na minha vida. Uma notificação. Um som. A tela do meu celular acendeu e eu, que logo estava com a cabeça pendurada de qualquer jeito no sofá virei os olhos para olhar " Você deu um novo Match!" piscava na tela de notificações. Olhei de relance para a barra de cima e marcava 1:38 da manhã. Me questionei em todos os quesitos, e acredite, eu realmente questionei quem era o tipo de pessoa que estaria no Tinder no inicio da madrugada de uma sexta-feira, eu me questionei, mas, dois minutos depois enviamos juntos o primeiro "Oi" e a conversa percorreu. 1 hora e meia depois eu te dediquei um poema de Carlos Drummond meio adaptado por mim, e 2 horas e 39 minutos depois você me mandou mensagem no WhatsApp "Oi, é a mel" e eu ri, quem mais mandaria mensagem naquele horário, ainda mais um numero estranho, mas eu ignorei, e brinquei falando que agora você iria saber que eu não fecho nossa conversa, e ate o final daquela madrugada, até o sono ter nos vencido, eu não fechei nossa conversa, e nem mesmo depois.
  Como magia, do dia para a noite todas as minhas madrugadas então se passaram a ter mais significado do que deveriam, e por mais que o dia corresse de forma mórbida, era sempre de madrugada que tínhamos nossas melhores conversas, e eu lutava contra o sono como o Batman lutou contra o Superman. Como magia, todas as noites turbulentas e cansativas das crises e choros sem fim desapareceram, e meu peito começou a ser aquecido por você, e era quente como o inferno, porém, diferente do inferno que eu era habituado, e então, de novo eu me questionei se havia um modo bom do inferno, e se existisse, era você.
  Você estava do meu lado quando meu Natal foi o pior que eu já tive, e o transformou no melhor ao mesmo tempo só de estar ali comigo mesmo com 158Km no meio, eu estava sozinho e trancafiado, e você só ficou ali do meu lado, pedi por mais natais assim, por mais natais com você comigo. do meu lado. Quando os fogos de artifício do Ano Novo estouraram no céu, não me importei em abraçar minhas amigas que estavam gritando do meu lado, ou os pais da minha amiga que tão bem me receberam para celebrar com sua família, não existia ninguém ao meu redor naquele momento, só você, que apesar de um pouco mais de 158km, e apesar de não estar presente comigo, te carregava no meu peito e na minha mente, como sempre carreguei antes daquele dia, "Feliz ano novo, amor" te enviei, e bati a mão no bolso tirando dois papeis dobrado junto com uma nota de 10 reais. Na minha família, eles falam que no ano novo você tem que ter no bolso aquilo que você quer que dure pro ano todo, e na hora da virada, tirar e pedir aos deuses a benção do pedido. E eu pedi a benção de não deixar que nada falte na minha família na questão financeira em relação a nota de 10 reais. Um dos papéis era uma foto da minha família que apesar dos pais separados, consegui tirar ainda aquele ano com todo mundo junto inclusive a sophia no meu colo, pedi aos deuses que não deixasse nada acontecer com eles e que os abençoasse com sabedoria e saúde. O ultimo papel dobrado com cuidado era uma foto sua. Branca e preta que você está com a mão no rosto. Com aquela foto, eu não só pedi que você fosse abençoada com saúde, paz e harmonia, mas que os deuses te permitisse ficar. Eu nunca tive fé nessas coisas, mas, naquela noite, com os fogos ainda estourando, eu tive, e pedi com todo meu coração que você ficasse. comigo.

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Capitulo 2: Junção

Os prédios e torres nos rondavam em São Paulo as 8 horas da manhã quando meu pai parou na Casa do Usuário para fumar a droga dele. Meus dedos gélidos tremiam no meio da neblina tóxica da grande capital. Me estiquei para fora do carro pela janela e me sentei na porta segurando no capô e olhei ao meu redor, todos aqueles edifícios, carros e pessoas que circulavam ali de diversas maneiras de locomoção, cada vida e história diferente. Ainda sentado na porta do carro esperando meu pai, um casal de idosos passou do meu lado indo em direção ao seu carro quando a senhora que minutos mais tarde se nomeou como Anna exclamou de maneira assustada "Garoto, cuidado! desça daí" seu esposo riu e segurou na mão dela a acariciando "Deixe o rapaz, querida. Os jovens de hoje em dia são rebeldes" ele falou de forma calma e descontraída, como se fosse normal no seu dia-a-dia ver sua esposa preocupada com as pessoas ao redor. Girei meu corpo saindo por completo do carro ainda sim pela janela e fui em direção ao casal os cumprimentando com um aperto de mão e um aceno tímido de cabeça, segundos depois, meu pai apareceu e iniciou uma conversa com Dona Anna concordando com ela sobre meus atos rebeldes como o de hoje, onde ele estava me levando para encontrar uma garota mais nova que conheci na internet com apenas 1 mês e 5 dias de conversa. Na hora da despedida, Dona Anna me abraçou e sussurrou no meu ouvido "vá em busca do teu amor, rapaz" e eu sussurrei de volta "estou indo agora" e sorri de forma tímida. Quando meu pai fez a curva entrando de volta na agitada Dutra, encostei minha cabeça no vidro pensando em toda a história de vida que Dona Anna e seu marido tinham juntos com 45 anos de casados, suspirei fundo sentindo o nervosismo me atingindo de novo quando por um milésimo de segundo me passou na cabeça a gente vivendo todo esse tempo junto.
  Senti meu queixo cair um pouco quando vi o o tamanho da biblioteca do Centro Cultural de São Paulo. Cada passo que eu dava, sentia a diversidade de cultura e pessoas atingir de modo certeiro meu peito, havia pessoas ensaiando peças de teatro, passos de danças e um grupo de amigos jogando Banco Imobiliário logo do lado - o qual eu fiquei com muita vontade de me sujeitar como novo jogador - nunca me senti tão estranhamente em casa como estava me sentindo ali. "me atrasei perdoas, mas daqui a pouco eu chego" você me enviou ás 10:08 da manhã e eu juro, nunca me senti tão nervoso como estava me sentindo, naquele dia, naquele momento, eu devo ter criado uma gastrite ou quase tido um AVC várias vezes. Foi quando eu passei a mão na minha nuca de forma nervosa pela vigésima vez naquele dia que eu te vi cruzando o corredor - passando pelo grupo de kpopers que estavam ensaiando os passos que eu jurei nunca conseguir fazer na minha vida -  vindo na minha direção, com sua mãe e seu irmão logo atrás mas por um momento quando finalmente te abracei, eu não me preocupei se sua mãe iria estranhar, se seu irmão iria querer te afastar de mim por instinto próprio, no exato momento que meu braço direito fez o contorno completo do teu corpo, te trazendo pra perto de mim, por alguns segundos construí uma bolha só nossa.
 Foi quando estávamos sentado um de frente pro outro e você me contava sobre seus antigos amores e passado amoroso, foi quando eu tive a chance de te observar minimamente que percebi o quão apaixonado eu estava por você e eu disfarcei meu gelo no estomago e nervosismo com uma risada sem graça. Minutos depois nossas mãos estavam juntas e nossos passos sincronizados no calçadão da Avenida Paulista, passávamos por diversas pessoas, de diversos tipos e estilos e esbarrávamos nas pessoas com pedido de desculpa depois e seguíamos sem rumo, apenas acompanhando o movimento. Quando entramos no Parque Tenente Siqueira Campos, questionei como um parque tão vivo da natureza conseguia se manter no meio da Avenida Paulista e quando eu virei para discutir isso com você, te vi observando cada detalhe das arvores e me senti apaixonado novamente por ver o seu amor e admiração por toda aquela mata.
 Achei moradia na curva do teu pescoço, comecei a fazer de você minha casa, meu lar. Meu nariz esbarrou no seu quando te beijei, te perguntei depois se você já havia em algum momento se sentido infinito, porque naquele momento eu me senti vivo... vivo porque todos nós sabemos que os instantes que se passam embarcam numa linha monótona e sem mudança pro passado, e vai da gente transformar aquilo em uma lembrança ou jogar na onda do esquecimento. Onda na qual você jamais entrará.

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Era 4:45 da manhã de uma quarta-feira quando sentei na poltrona do ônibus com destino para São-Paulo, acenei de leve para meu pai que me olhava apreensivo do lado de fora, com as mãos dentro dos bolsos do seu jeans desgastado. Me encostei de forma folgada na poltrona almofadada e prendi meu olhar na estrada, sem nenhum sinal do sol meu celular marcava 5:10 da manhã quando coloquei uma musica aleatória para tocar nos fones de ouvidos, fechei meus olhos respirando fundo e esperando ansioso. O sol incomodava meus olhos, e eu me perguntei qual foi o momento que ele apareceu no céu que eu não vi, olhei em volta e não era o mesmo cenário pacato que as grandes janelas do ônibus mostravam quando fechei os olhos as 5:10 da manhã, peguei meu celular e nenhuma mensagem sua, eram 6:50 da manhã e eu já estava nas marginais de São Paulo, mandei uma mensagem pro meu pai avisando que havia pego no sono e lhe informando onde eu estava "Oi pai, acabei pegando no sono. Estou em São Paulo. Não sei aonde, mas ainda estou no ônibus" bloqueei a tela do celular e estiquei o meu corpo o máximo que consegui, e respirei fundo. E de novo. E de novo. Meu pulso começou a queimar indicando que minha ansiedade estava começando a queimar no meu peito e eu tentei manter a calma quando vi a grande Rodoviária da Barra Funda na minha frente, e comecei a me questionar e me perguntar onde meu pai estava com a cabeça ao deixar eu vir sozinho para São Paulo, pegar metrô sendo que nunca peguei antes. Fiquei me perguntando ainda mais o que eu estava fazendo quando desci do ônibus e vi todas aquelas pessoas andando apressadamente pelos corredores da estação, cada vida, alma e corpo diferente que esbarravam por mim. O que eu estava fazendo aqui? A resposta veio quando eu desbloqueei meu celular na intensão de avisar meu pai minha localidade - que era nosso combinado - foi quando eu vi sua foto de papel de parede do meu celular, sua foto que você tirou quando chegou em Ilha Bela, de vestido, e eu suspirei fundo, apaixonado, e entendi o que eu estava fazendo aqui, e o quanto era importante pra mim continuar e seguir meu caminho.
 7:28 da manhã quando peguei o metrô, depois de ter esperado passar cerca de 2 carros, eu finalmente embarquei e as luzes piscavam conforme ele passava pelos tuneis de concreto. Meus dedos apertavam forte e firme a barra de ferro que eu usava para me segurar, a respiração falhada invadia meu peito e saía pela minha boca de forma sofrega. Eram 7:40 quando peguei meu segundo metrô na baldeação da linha vermelha pra linha azul. Da Sé vindo de Palmeiras-Barra Funda indo para o Jabaquara. Tentei ver se o jogo de esperar outros carros de metrô funcionava, mas quanto mais eu deixava um carro passar e esperava cerca de 2 á 3 minutos para vir outro, maior era o arrependimento, mais pessoas chegavam, embarcavam. Eu desci na parada da estação São Joaquim. Na metade do caminho eu simplesmente pulei pra fora do metrô quando as portas abriram, andei cerca de 20 passos ate sentar no chão com as costas na parede fria da estação parada e calma, bem o contrario daquele metrô que acabará de partir as pressas, com pessoas que estavam com mais pressa ainda dentro. Eu respirei fundo, uma, duas, três vezes e na quarta, um soluço escapou da minha boca e eu tampei rapidamente para não chamar atenção de ninguém - como se estar sentado no chão de uma estação praticamente nula de pessoas já não chamasse atenção o suficiente - eu sentia as lagrimas escorrendo violentamente pelo meu rosto, e meu peito subia e descia com pressa, tão assustado quanto eu, e eu entendi a preocupação do meu pai ao me deixar de qualquer jeito vir sozinho para São Paulo. E eu entendi a preocupação das minhas amigas quando disse que estava vindo sozinho para São Paulo. E eu entendi melhor do que nunca que eu tinha crise de pânico.
 Desbloqueei a tela do meu celular e não tinha nenhuma mensagem sua. Nem do meu pai. Outro carro de metrô passou as pressas e fez meu cabelo sacudir com a velocidade absurda. Eu ainda estava no chão gelado, e meu peito ainda doía. Abri nossa conversa e a ultima mensagem era minha "te quiero" e eu realmente te queria. Eu fui lendo nossas conversas, e lendo, e lendo, e então o primeiro impulso que dei, peguei minha mochila no chão e entrei rápido no vagão do metrô que estava parado esperando as pessoas entrarem e/ou saírem, nada me motiva mais do que você e meu peito estava com uma disputa de medo e saudade, e não importa qual fosse ganhar, eu iria matar os dois hoje. "ei oioi, bom dia" você me mandou no exato momento que o trélobus/EMTU saiu do terminal Jabaquara em direção á São Bernardo do Campo, você me perguntou qual era minha localização e foi se arrumar logo depois. Encostei minha cabeça na grande janela do trélobus/EMTU e respirei fundo podendo só agora acalmar minha respiração depois de toda a adrenalina que passei para chegar até ali, e por um momento, pensei em todas as pessoas que faziam aquele caminho todos os dias, e como pra elas aquilo tinham se tornado algo monótono e pra mim era algo tão novo e assustador, e por um momento me senti triste por perceber que eu tive dificuldade pra fazer algo tão simples e feliz por ver que enfrentei o medo e não desisti. A guerra de sentimentos era grande dentro de mim.
 Quando encaixei minha mão no seu maxilar, e te puxei na minha direção pra te beijar, eu não sentia mais medo, e eu percebi que a saudade ganhou e apesar de ter pensado que poderia mata-lá hoje, eu percebi que até quando você tava comigo eu já conseguia sentir saudade, quando se passavam 10 minutos ao seu lado, eu sentia saudade dos 10 minutos que se passaram e que agora nós não os tinham mais. A saudade de você sempre vai morar no meu peito e quando eu te beijei entendi isso, e suspirei, feliz e aliviado por estar em casa. Nada melhor do que o nosso lar. Apesar do mundo e a natureza terem suas cores, antes de você entrar na minha vida eu sempre enxerguei tudo meio preto no branco e com poucas cores, e depois, como todo clichê demanda, com o passar dos dias você foi me ensinando uma forma diferente de olhar as cores e me ensinou a continuar gostando do azul, do preto, mas que a vida e as coisas não tinham só essas cores, e que por mais que o amarelo e o verde sejam chamativos, elas era alegres e eu precisava disso. Alegria. Eu precisava de alegria como um bêbado precisa de álcool, o rato o queijo e o cachorro o carinho do dono. E foi nessa explicação que eu achei sentido e vi razão da sua risada ser o despertar da minha alma, e tu ser meu lar.
 No caminho de volta, eu não me importei mais para a quantidade de pessoas que tinham ao meu redor, ou se o metrô estava cheio ou não, a unica coisa que estava na minha cabeça era que para cada minuto que se passava, era um minuto e alguns metros de distância a mais que eu estava ficando longe de casa. No caminho de volta eu não estava me importando com mais nada que acontecia ao meu redor, eu estava imerse em uma bolha de saudade e infinitude. E foi quando eu sentei no vagão do metrô sentido Palmeiras-Barra Funda, que eu percebi que não importasse quando fosse, ou o horário que fosse, eu faria tudo de novo, e de novo, e de novo, se no final do percurso você estivesse lá, me esperando, com o sorriso de lado esperando eu chegar pra dizer " e aí, tudo bem? " e eu então poder te responder " tudo bem. ta tudo bem " com o peito aquecido. A junção da tua alma com a minha era uma coisa bonita de se ver.

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Capitulo 3: O difícil pode ser divertido se enfrentarmos juntos.

 Eu não podia esquecer o fato de que suas aulas logo voltariam, e não me saía da cabeça que não seriam apenas 5 horas de aulas no período da manhã e mais umas 2/3 de estudos próprios na parte da tarde. Não seria assim. Teu colégio não era assim. Você tinha me dito que Segunda, Quarta e Sexta os estudos seguiam das 7 horas com pausa para o almoço das 13:30 e depois das 14:30 até 18 horas. Eu não podia esquecer o fato que suas aulas logo voltariam e que as coisas poderiam ficar complicadas para nós e foi com esse pensamento que dividi com meu pai e joguei na mesa minhas cartas de inseguranças, de medo e duvidas sobre o que essa sobrecarga poderia nos causar, e foi assim que meu pai permitiu que eu fosse te ver 3 semanas seguidas, todas as quintas-feiras eu estava lá, as 5:45 da manhã pegando o ônibus para São Paulo e acenando pro meu pai do lado de fora que como de costume estava com as mãos no bolso do seu velho jeans surrado. E como de costume eu dormia no ônibus e sempre acordava em São Paulo com o sol brilhando fortemente na janela. E os metrôs cheios não me incomodavam mais, nem a Barra Funda a todo vapor ás 8:10 da manhã.
 Quando suas aulas voltaram no dia 26 de Fevereiro, logo na primeira semana de aulas já sentimos o baque das poucas horas de conversa e o seu cansaço físico e mental te acertando em cheio no estômago, e você me disse que nessa primeira semana, as terças e quintas você sairia as 13:10 e poderia voltar pra casa direto. Eu estava com saudade, e em uma das conversas por telefone, antes de você dormir quando me perguntou "ei, quando a gente vai se ver de novo?" me deixou cabisbaixo porque eu não tinha a resposta, não dependia apenas de mim, porque se dependesse, eu iria correndo até você naquele estante, ou pegaria o primeiro ônibus do dia seguinte, só que as coisas não funcionavam mais assim, e como resposta, eu apenas suspirei fundo e disse "eu não sei, mel. Eu não sei." e aquilo me matou por dentro. E foi por isso que dia 27 de março as 22 horas da noite eu mandei mensagem pra sua mãe pedindo a autorização dela pra te levar para almoçar na quinta-feira dia 1 de março, e depois de criar uma gastrite e alguns AVC's falhos, ela disse que tudo bem e eu respirei aliviado querendo te dizer que logo logo eu te veria. Que logo logo eu estaria contigo.
 Diferente de todas as viagens de ônibus que eu tinha feito para São Paulo, nessa eu não consegui pregar o olho um instante que fosse, observei cada trecho e caminho que o ônibus fazia, cada curva e entrada e saída dos pedágios das rodovias, sem ouvir musica dessa vez, me lembrei da conversa mais cedo que tive com meu pai, que depois de deixar minha irmã no trabalho e com 40 minutos sobrando para eu pegar o ônibus, parou em um café comigo para fazermos o desjejum - eu sabia que não era só por isso - no meio da conversa sem palavras, ele pegou na minha mão e ficou com a costa ereta deixando claro que seja lá o que ele fosse dizer, iria ser sério, e eu como um garoto indefeso, fiquei quieto esperando um sermão ou algo do tipo, mas isso não aconteceu, "você sabe que o pai te ama" ele começou a falar, ainda segurando minha mão e ficando vermelho de vergonha "eu sei que você ta indo atrás do seu amor, e eu consigo ver o quanto você ama essa menina e não quer perde-la. Eu sei que você ta assustado com essa nova fase de estudos dela. Bernardo, não faça mais do que você deve e não dê mais do que você pode. Eu não quero que você se machuque e que você fique sofrendo depois porque eu como seu pai, não vou suportar isso." e com lágrimas nos olhos, e com a garganta formando um nó, consegui ter voz para responder "Pai, eu amo você e sou muito grato por tudo que você tem feito, por todo o apoio que vem me dando, mas se eu vou ou não sofrer, isso não é algo que posso escolher, querer ou não querer. Eu to assustado sim e com medo também, mas eu tenho que enfrentar de alguma forma. Eu sou teu filho, e se tem uma coisa que eu aprendi com você é ser forte e guerreiro." ficamos nos olhando por alguns segundos ate ele levantar e ir pagar a conta. Eu entendia o medo dele, porque eu realmente sentia medo do rumo que as coisas poderiam seguir, mas eu não podia fazer mais do que estava fazendo. Não sozinho. E logo depois de embarcar no ônibus, olhei para os lados e meu pai não estava do lado de fora para eu acenar para ele e quando olhei em direção ao estacionamento, só consegui ver o carro fazendo a curva da avenida e indo embora. Não tinha ninguém pra eu acenar em despedida aquele dia.
 Diferente dos dias que fui até você, dessa vez eu peguei Uber sozinho no mesmo local de encontro que tínhamos, e quando entrei na Eco Sport de cor cinza, iniciei uma conversa aleatória com a motorista que insistia para eu sentar no banco da frente e conversar com ela, foram 15 minutos de conversas e no final da viagem, ela já sabia que eu era trans, que meu pai era vendedor e que eu estava apaixonado por uma garota 2 anos mais nova e que isso não fazia a menor diferença já que em muitos aspectos você era mais - bem mais - inteligente que eu. E antes de eu descer do carro, ela pegou na minha mão e me desejou boa sorte "vá atrás da garota que você ama" e eu sorri grandemente e respondi "eu estou indo". O sol queimava não só meu rosto, mas meu corpo inteiro e eu me senti estupido por gostar tanto de roupa preta e querer usá-la em dias quentes como esse. Eu estava na escada do meu colégio te esperando sair, e parecia a primeira vez que eu iria te ver, minhas mãos tremiam e eu me sentia gelado apesar do sol de 40 graus que me atingia. Quando te vi descendo as escadas com seus amigos, eu ri sozinho por você não me notar, e fui andando atrás de você, ate tocar no seu braço e meu coração batia acelerado e aposto que se não fosse toda a barulheira de crianças e carros em volta de nós, seria possível ouvir de forma certeira o barulho das batidas dele.
 Você perguntou se tava tudo bem quando entramos no Golden e eu te questionei o porquê da pergunta, "sei lá, você ta tão quieto" e eu dei risada falando que não era nada quando na verdade eu sabia que era tudo. Já teve a sensação de ultima vez? era isso que eu tava sentindo, como se eu nunca mais fosse pisar nesse Shopping, eu olhava tudo e cada loja gravando cada detalhe e quando sentamos no nosso banco daquela praça tão conhecida por nós, eu te olhava a cada 5 segundo, gravando seu rosto, seus detalhes como a pequena cicatriz que você tem na bochecha esquerda. A pequena pinta que você tem pertinho da orelha do lado esquerdo também. As cicatrizes no seu pulso que sempre que eu podia distribuía beijinhos e dizia o quanto aquilo tornava você uma pessoa forte, mesmo você me contrariando e dizendo que era exagero. Sim, eu era exagerado.
 Quando encaixei meu queixo no vão do teu pescoço depois de te beijar, limpei com rapidez a lágrima que insistia em escorrer, e eu fiquei um tempo ali, esperando meus olhos pararem de lacrimejar e enquanto isso, senti teu cheiro, e a quentura da tua pele, rodeei meus braços pelo teu corpo e te puxei pra mais perto de mim - se fosse possível, queria fundir tua alma com a minha para virarmos um só - você era meu lar e mesmo estando em casa, parecia que eu estava tão distante ainda. Segurei teu maxilar de forma delicada, e beijei suas bochechas, e te vi fechar os olhos como você sempre fechou em todas as vezes que eu te enchia de beijinhos. Beijei tua testa, em forma de respeito e carinho e teu nariz e então, sem muito enrolar beijei teus lábios. No Guines Book diz que o beijo de maior duração foi de 58 horas, quando descobri isso fiquei me questionando quem aguentaria beijar por todo esse tempo? - eu tinha 14 anos na época - eu não me importaria em te beijar por 58 horas, ou viver com você por 58 anos, porque aquele dia, com toda aquela controversa de sentimentos bons e ruins, eu vi que te amava, e que você não era só o meu lar, minha casa, naquele dia te olhando comer uma caixa de nuggets do McDonald eu descobri que te amava. Eu entendi porque eu ia dormir pensando em você, e acordava querendo te ver. Entendi porque todos os meus textos eram sobre você e meus desenhos tinham sua face. Eu entendi naquele dia te vendo comer nuggets e bebendo água, que não era uma paixão qualquer de adolescente, era amor.
 No caminho de volta, eu não me importei em chorar no Trélobus, ou no metrô, ou no ônibus. Apesar de todo cansaço físico que sempre sinto no final da noite, aquele dia eu também não dormi na volta, ajeitei minha blusa e fiquei com a cabeça na janela pensando estar olhando tudo lá fora quando na verdade meu pensamento estava em você. sempre em você. e eu me perguntava quando íamos nos ver de novo mesmo que á 2 horas atrás tu estava em meus braços. Quando desci do ônibus meu pai já me esperava dentro do carro no estacionamento da pequena rodoviária, e ele soube no exato momento que eu entrei e dei um "oi" baixo, que eu não estava bem, ou foi pelos olhos vermelhos e nariz irritado. Quando cheguei em casa, não me preocupei em dar "oi" pra minha irmã e a Sophia que estavam no quarto, apensar agradeci ao meu pai e fui para meu quarto, trancando a porta e jogando a mochila em qualquer direção. Olhei em cima da minha mesa e vi o porta-retrato com nossa foto, você segurando no meu ombro e eu sorrindo de lado. Deitei na minha cama, com o jeans e tênis ainda, com o porta retrato na mão eu deitei no colchão ruim mas sem reclamar dessa vez e respirei fundo, deixei as lágrimas voltarem e mesmo sem acreditar em nenhuma crença ou religião, mesmo sem acreditar em nada, eu pedi aos céus ou qualquer poder submisso a nós que não te deixasse ir. você é tudo de bonito que eu tenho, e tudo de melhor que eu sou.

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Capitulo 4: Foi o destino que quis assim?

Bukowski tinha uma duvida em questão e decidiu abrir seus pensamentos para o publico e ver se alguém poderia ajuda-lo, e em uma carta aberta ele disse " Os fiéis dizem que seus deuses já sabem de toda nossa história. Se assim como as estrelas que vemos serem apenas o reflexo delas pois já estão mortas, qual é a probabilidade de sermos apenas almas vivendo novamente algo que já está predestinado? com começo, meio e fim. E se não tivermos total controle de nossas ações? ". O que aconteceu com ele? bom, o intitularam como velho bêbado e louco.
 Você já parou para pensar na quantidade de coisas que existem em volta da gente? É facebook, tinder, tarja preta, pornografia, álcool, porra é uma caralhada de coisas que parece que nunca da pra pensar direito no que a gente verdadeiramente quer, por exemplo; Você sente uma dorzinha no peito, você não se importa porque você toma um frontal e passa ou não. Você liga o Tinder pra pensar com a cabeça de baixo, ou não. Você enche a cara e no dia seguinte você acorda com uma puta dor de cabeça e a dor de cabeça é maior que a dor no peito, mas apesar de todas essas possibilidades, eu não consigo parar de pensar em você. Somos automaticamente propícios, a cometer erros." você não pode escolher se vai ou não sofrer, porque isso é algo inevitável. Mas, você pode escolher quem vai te fazer sofrer " e eu te escolhi, mesmo que torcendo pra isso não acontecer eu te escolhi. Eu queria te dizer com todas as palavras que eu não sinto falta do teu carinho no meu cabelo, ou da sua mão na minha. Queria te dizer com todas as palavras explicitas que eu não sinto tua falta, mas eu prometi nunca mentir pra você e dizer tudo isso seria uma enorme mentira.
 No filme recente que eu assisti, o Antônio pergunta pra Sofia "por que a gente só presta atenção quando perde e porque dói tanto lembrar? Sofia falou que não sabia a resposta e perguntou pra ele se ele sabia, e então, ele disse que estava tentando descobrir a partir do momento que ela foi embora. Não sei qual foi o momento em que soltamos nossas mãos e seguimos por caminhos diferentes. Não sei qual foi o momento em que a onda de monótonidade nos atingiu, mas ela atingiu.
 Meu pai ainda pergunta sobre você nas tardes de domingo e eu não sei responder nada além de "espero que ela esteja bem". Eu tentei enganar a mim mesmo quando disse que iria te apagar da minha vida, porque por um instante eu achei que poderia e conseguiria, tão ingênuo. O filme As Vantagens De Ser Invisível, o professor do Charlie diz " Nós aceitamos o amor que achamos merecer" e teu amor era tudo que eu queria e merecia. Você foi meu ponto de infinitude. E eu te amei, por cada segundo.

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